
Os olhos de Moacyr Scliar se iluminaram quando, em 1976, ele encontrou Ferreira Gullar, na cidade de Buenos Aires. Gullar é autor de “Morrem quatro por minuto”, poema que Scliar citou no discurso de sua formatura em medicina. Foram três horas de conversa que o psicanalista e primo de Scliar, Abrão Slavutzky, relembrou recentemente em uma crônica para o portal Matinal Jornalismo. Cercado de afeto, o relato revela a simplicidade e a cumplicidade de dois grandes escritores, unidos por sua visão humanista da vida. O texto completo está disponível abaixo. Boa leitura!
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O GRANDE ENCONTRO, por Abrão Slavutzky
Vale a pena recordar alguns encontros marcantes, entre os quais o de dois escritores: Moacyr Scliar e Ferreira Gullar. Foi no distante ano de 1976, e no meio da trágica ditadura militar argentina, ocorreu o encontro de vastas emoções. O escritor gaúcho tinha incluído uma poesia do poeta maranhense no seu discurso de formatura médica no distante ano de 1962. Já o encontro de ambos foi num apartamento simples, na modesta calle Combate de los Pozos, num bairro de pequena burguesia. Era um domingo à tarde, onde além dos escritores estavam a Judith, esposa do Scliar, minha esposa Sonia e alguns amigos brasileiros. Era um apartamento quarto e sala, com a cozinha e o WC minúsculos e, para sentar, almofadões no chão.
Scliar havia me ligado na sexta-feira, dia em que chegou na capital portenha, e logo acertamos para nos vermos no domingo à tarde. Aí me ocorreu convidar o já famoso poeta Ferreira Gullar, e no dia seguinte, sábado, liguei ao poeta que havia conhecido no ano anterior ao integrar um grupo que o entrevistou para a revista Versus do primo Marcão. Ele logo ficou contente, já imaginei que esse domingo seria emocionante, e não avisei ao Scliar, é claro, mas pressentia sua alegria, pois não o conhecia pessoalmente. Eram umas quatro horas da tarde quando ele chegou com a Judith e uns quinze minutos após tocou no interfone e era o Gullar. Precisava ter fotografado o autor de O centauro no jardim, que Scliar ainda escreveria. Os olhos dele se iluminaram ao ver o poeta que ele só conhecia de ler. Mico, como os amigos e familiares o chamavam, ainda não havia ganho três jabutis e vários prêmios internacionais. Para se entender a vasta emoção do autor de A mulher que escreveu a Bíblia, é preciso recuar ao ano que se formou médico e foi o orador da turma de mais de cem médicos em 1962. Talvez a maioria que está lendo agora não era nascido ou ainda não sabia ler, e eu, adolescente, estava na festa que foi na velha Reitoria da UFRGS lotada. Estava de pé, bem ao fundo, quando o Moacyr começou a ler seu longo discurso, na noite do dia 23 de dezembro, há 65 anos. Suas primeiras frases foram:
“Há um dia para começar; há um dia para terminar/Há um dia para subir as escadarias da Faculdade pela primeira vez; e vem o dia para descê-las pela última vez/Há um dia para ser estudante talvez despreocupado; mas há um dia para ser médico certamente responsável”. O silêncio era total entre as centenas de familiares e amigos, e o orador falava com emoção. Foi quando leu parte do poema de Ferreira Gullar “Morrem quatro por minuto nesta América Latina”.
Morrem quatro por minuto nesta América Latina
Não conto os que morrem velhos, só os que a fome extermina
Não conto os que morrem velhos que, na América Latina,
esses são poucos; os homens aqui mal passam dos trinta
Não conto os mortos de faca nem os mortos de polícia;
conto os que morrem de febre e os que morrem de tísica;
Conto os que morrem de bouba, de tifo, de verminose;
conto os que morrem de crupe, de cancro e esquistossomose.
Mas todos esses defuntos, morrem de fato é de fome,
quer a chamemos de febre ou de qualquer outro nome
Morrem de fome e miséria quatro homens por minuto
embora enriqueçam outros que deles não sabem muito.
O que mais lembrei daquela noite foi esse poema, em especial os primeiros versos, e também a crítica as injustiças sociais do País. O discurso despertou incômodo na Direção da faculdade, que respondeu à rebeldia do orador. Quatorze anos depois, no encontro, lembrei diante deles o uso da poesia pelo formando em medicina. Gullar ficou surpreso, emocionado, e muito se conversou do passado, sobre o Brasil, o longo exílio do Ferreira Gullar (já se tinham passado seis anos), das novidades literárias do Brasil e muito mais. Foram umas três horas de conversa animada, com as excelentes panquecas que a Sonia fez para o grupo.
O encontro foi histórico, e uma vez recordei com o Scliar de como Gullar estava com saudades do nosso Brasil, pois viver anos e anos como exilado é sofrido. Agora, após cinquenta anos, sinto que esse domingo à tarde precisaria ter sido filmado, fotografado, mas aqui tento transmitir um pouco da alegria de dois escritores que cresceram de importância aqui e no mundo. Scliar morreu em 2011, e de tempos em tempos lembro do amigo com saudades, e esse sentimento a gente pode aliviar escrevendo. Ele faz falta, assim como o Verissimo, o Gullar e mais e muito mais. Temos os livros de todos e seus personagens seguem encantando, é só abrir uma obra desses grandes e logo se dará o encontro. Escrevo para matar as saudades, e compartir esse distante domingo a tarde na capital portenha no qual o Ferreira Gullar e o Moacyr Scliar se conheceram e todos se divertiram.


























