Uma história com cara de filme repetido
Meninos e tigres
Artur Xexéo escreve sobre “as desventuras de Pi” no Globo

Reprodução da coluna do Xexéo na Revista O Globo de hoje. Ele explica bem a história do plágio atribuído ao Yan Martel ao lançar “A vida de Pi”, copiada de “Max e os felinos” de Moacyr Scliar. AS DESVENTURAS DE PI Artur Xexéo Torcia para que “As aventuras de Pi”— o filme que, originalmente, se chama “The life of Pi”, mas recebeu este estranho título no Brasil — fosse uma produção de poucas qualidades. Nada contra seu diretor, Ang Lee, cineasta que já me deu muito prazer no cinema. Mas um filme bom, tirado do romance “A vida de Pi”, traria mais alguns trocados para seu autor, Yann Martel, e isso me deixa irritado. Faturar em cima da ideia alheia não é das atitudes mais bonitas que estão por aí. Por isso, torcia para que “As aventuras de Pi” fosse ruim, não fizesse sucesso e não aumentasse a conta bancária de Martel. É ruim que Ang Lee não faça um bom filme. “As aventuras de Pi” não é a melhor obra do diretor de “O segredo de Brokeback Mountain”, “Razão e sensibilidade” e “O banquete de casamento”. Também não é o pior filme do autor de “Hulk”, “O tigre e o dragão” e “Aconteceu em Woodstock”. “As aventuras de Pi” está ali no meio, junto com “Comer, beber, viver” e “Desejo e perigo”. É um pouco verborrágico — a estrutura do roteiro segue a estrutura do romance, em que há um narrador —, talvez um pouco longo — o epílogo se prolonga mais do que necessário — e, certamente, deslumbrado com as possibilidades do 3D. Mas é irresistível. O que interessa mesmo, a convivência do jovem indiano Pi com um tigre de bengala, num bote salva-vidas, após um naufrágio, é muito bem filmado e deixa o espectador com medo de piscar os olhos e perder alguma coisa. É aí que eu começo a me irritar de novo. Toda essa situação é copiada do romance brasileiro “Max e os felinos”, escrito por Moacyr Scliar. No livro de Martel, o protagonista sofre um naufrágio e sobrevive num barco ao lado de um tigre; no livro de Scliar, o protagonista sofre um naufrágio e sobrevive num barco ao lado de um jaguar. Em seu livro, o autor canadense faz uma citação ao escritor brasileiro. Em meio a agradecimentos a bibliotecárias e pesquisadores, ele agradece “à inspiração” de Moacyr Scliar. Convenhamos, foi bem mais do que uma “inspiração”. Quando o livro de Martel ganhou o prêmio Booker e, consequentemente, 75 mil dólares, a imprensa brasileira denunciou o plágio. Martel teve que se explicar. Disse que não tinha lido o livro de Scliar, apenas uma resenha publicada num jornal. Disse também que a resenha era negativa e que uma ideia tão boa tinha que ser mais bem aproveitada. Ele se encarregou, então, de transformar a boa ideia em bom livro. Em outras palavras, a emenda saiu pior do que o soneto. A tal resenha negativa nunca foi localizada. Martel nunca soube dizer onde a leu. Mas o caso foi tão constrangedor que ele acabou telefonando para Scliar com um pedido de desculpas. Scliar relevou, mas nunca engoliu a história. Agora o filme está aí. Faz sucesso no mundo inteiro e aumenta o faturamento do plagiador. É por isso que eu não queria gostar. Mas gostei. Um pouquinho. Acharia melhor se não fosse em 3D (como são incômodos os óculos para se assistir a um filme em três dimensões!). A tecnologia, tão bem utilizada por Martin Scorsese em “A invenção de Hugo Cabret”, não acrescenta nada a “As aventuras de Pi”. Mas a fábula da sobrevivência, que funcionou bem nos dois romances, continua funcionando no cinema.
Dica Cultural – O Centauro no Jardim

No começo de dezembro, Judith Scliar esteve no Rio para o lançamento de um livro do Moacyr no Midrash. Essa entrevista foi para o programa de TV da Federação Judaica. Ela falou sobre ” O Centauro no Jardim”, um clássico cuja leitura é recomendada a todos.
Moacyr Scliar
Caetano Veloso aborda a polêmica sobre “A vida de Pi” em sua coluna no Globo

Caetano também aborda o assunto na coluna de hoje, no Segundo Caderno do Globo. CAETANO VELOSO segundocaderno@oglobo.com.br Luto Acho que Ang Lee foi levado a fazer o filme de Pi por causa do desafio de pôr em cena a experiência de um menino sozinho com um tigre no meio do oceano. Essa ideia chegou a Yann Martel, o autor do livro em que o filme se baseia, através de “Max e os felinos”, romance de Moacyr Scliar, em que um menino judeu, sobrevivente de um naufrágio na fuga da Alemanha nazista para o Brasil, se vê num bote acompanhado de um jaguar. Martel tinha 36 anos quando aprendeu a história. Depois de ter dito que estava à espera de uma história com H maiúsculo para escrever um livro, deparou-se com o argumento de Scliar. Apesar de tudo resultar bem, com o escritor gaúcho sem ânimo de abrir um processo por plágio, Martel aparece mal na fita quando diz ter lido apenas uma resenha escrita por John Updike (que depois disse nunca ter resenhado o livro de Scliar), mas sobretudo quando disse tratar-se de “uma grande ideia tratada por um escritor menor”. Scliar pode ser visto no YouTube comentando o caso, muito desencanado. Martel terminou escrevendo um agradecimento nominal a Scliar “por uma faísca de vida”. “Não sou litigioso”, diz Scliar. E soa muito bem. Mas ele se ressente, como eu, de que a declaração de Martel sobre “escritor menor”, tendo dito que não leu o livro mas apenas a resenha, trai um preconceito contra a possibilidade de um livro brasileiro ser relevante. Em suma, o filme de Ang Lee é que faz brilhar a história dessa história.
Die Krieg in Bom Fim (2013)

Berlin, Hentrich & Hentrich, 2013
Die Götter der Raquel (2013)

Berlin, Hentrich & Hentrich, 2013


























