Entre o shtetl e o gulag: vozes do judaísmo russo

Texto: Moacyr Scliar / Desenhos: Ester Gurevich Ai, Rússia, Rússia. Ai, Rússia. Quem te fala, não e ninguém. Nem um presidente, nem um general; nenhuma dessas pessoas que costumam dirigir-se a países com a autoridade que lhes dá o poder e/ou as armas. Quem te fala é alguém que ousaria designar-se por “Um do povo” -Ahad Haam- não tivesse este pseudônimo sido usado antes por um sionista ilustre, Asher Guinzberg, que tuas terras aliás viram nascer. E, se o faz, e por razões que nada têm a ver com a política. E por causa de faces, Rússia, de faces que me são familiares, que despertam em mim emoções: as faces de minha avó, de minha mãe, de meus tios. Faces de malares salientes, de olhos oblíquos, com aquele páIido sorriso característico dos povos que sofrem. Por estas faces te falo, Rússia, e também por lembranças da infância: o samovar de cobre de minha avó, de onde saía o chá que nos aquecia a alma nas longas noites do inverno gaúcho. E te falo por causa das histórias que ouvi. E por causa de Trotski, de I. Babel, de ChagalI, de Sholem Aleichem. Por causa dos filmes e das canções que faziam bater mais forte o meu coração de jovem. E por amor que te falo, Rússia. Por um amor ao qual se misturam a decepção, quando não a raiva. Mas amor, sim. O amor que se sente por uma pátria distante. E que nos, judeus, temos muitas pátrias distantes. Olho o rosto de minha mãe, já falecida, numa velha foto. É o rosto de uma camponesa russa. Por que terá essas feições? Será, como dizem, descendente dos khazares, aquele povo que, no século VIII, se converteu ao judaísmo? É uma história estranha, essa, como estranhas são muitas das histórias que se contam sobre ti, Rússia. Estranha, mas não desprovida de lógica: comprimidos entre os cristãos, ao norte, e o Islã, força crescente, ao suI, não e de surpreender que os khazares tenham visto no judaísmo uma forma de manter a independência e a neutralidade. O que funcionou por dois séculos; em 970 DC um exército russo destruiu o reino da Khazaria. Já então se manifestava em tuas terras, Rússia, aquele irresistível, e imperial, poder de expansão. Poder que o mundo aprenderia a conhecer e a respeitar. Somos, então descendentes dos teus khazares, Rússia. Não sei. Nós, judeus, não somos muito bons nesta aristocrática ocupação que é buscar ascendentes nas brumas do passado. Nossa árvore genealógica é sempre mirrada; um arbusto, como aquela sarça – verdade que ardente – da qual Deus falou a Moisés. De modo que, se quiséssemos, poderíamos recuar ainda mais no tempo e encontrar, antes mesmo dos khazares, notícias de judeus vivendo no território do que depois seria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em sua atormentada dispersão pelo mundo-que teve início ao tempo de conquista assíria em 722 AC, prosseguiu sob o domínio grego e romano e tornou-se regra na Europa Medieval – os judeus vagaram de região em região, de aldeia em aldeia. Um movimento aparentemente errático, mas na realidade condicionado pelas forças que orientam os fluxos migratórios: a busca de melhores condições de vida. De riqueza, se possível. A isto, se acrescentava, no caso judaico, a necessidade de manter uma identidade de grupo. Impulsos que a História foi tornando contraditórios. No Ocidente medieval europeu os judeus mantinham, e eram mantidos, como grupo autônomo. Mas a ascensão de uma nova classe, a burguesia, colocou-Ihes um dilema: direitos humanos, sim, e ascensão social provavelmente -mas identidade grupal, não (Clermont-Tonerre, na Assembléia Nacional que estruturou o ideário da Revolução Francesa de 1789: “Aos judeus, como indivíduos, tudo; como nação, nada”). E era isto que fazia os judeus voltarem os olhos para o Leste: pois, se a Oeste estavam o poder, a cultura e a riqueza, o Oriente representava o apelo do emocional, do espiritual. Poderoso tropismo, Rússia, como o sabe a tua mística gente. Tu eras, Rússia, o horizonte da esperança judaica. Em tuas vastas terras os judeus poderiam – O que? – desaparecer. Paradoxal propósito que o judeu Walter Benjamin – ainda que num outro contexto expressaria numa frase melancólica: achar-se num lugar e fácil, difícil e perder-se. E isto é o que os judeus queriam, perder-se, desaparecer da vista de seus inimigos. Mas, de novo, havia aí impulsos contraditórios; se, de um lado, a amarga experiência mostrava que para os judeus era melhor sumir na massa do povo, assimilar-se, de outro lado eram eles portadores de uma destinação histórica, resultante de um condicionamento que os obrigava, sempre e sempre, a se reunir, mesmo quando queriam se dispersar, a aparecer mesmo quando queriam sumir, a subir mesmo quando queriam descer, a falar mesmo quando queriam calar. Durante toda a Idade Média os judeus viveram na Europa Ocidental. Médicos e artesãos, comerciantes e usurários, eles habitavam, na expressão de Marx – este judeu Marx, Rússia, que tanta influência teria em seu destino – os poros da sociedade, num equilíbrio instável que a todo instante podia ser rompido. Disto a usura era um exemplo típico. Proibida aos cristãos, era reservada aos judeus, que emprestavam dinheiro aos senhores feudais para financiar as expedições guerreiras, a compra de bens luxuosos. Devedores perigosos, aqueles, quando não queriam pagar, desencadeavam um massacre contra os credores. Que, por causa disto cobravam altos juros. Um caso de convivência, quando não de cumplicidade, entre criminoso e vítima. Um precário equilíbrio, rompido quando o capitalismo surgiu no cenário europeu, fazendo ruir uma anacrônica estrutura que dificultava a circulação de riquezas. Neste período de intensas transformações, os judeus foram os primeiros a ser executados de suas precárias posições. A partir do século XVI – o século dos descobrimentos, da imprensa, da pólvora, do surgimento das corporações mercantis e dos grandes bancos, tem início um duplo movimento: expulsos daPenfnsula Ibérica, da França, da Alemanha, os judeus dirigem se para Leste; vão ao encontro do Império Russo que se expande para Oeste. Junto a este poder em ascensão

Um Seder para os nossos dias

Texto: Moacyr Scliar / Desenhos: Carlos Scliar Esta mesa em torno a qual nos reunimos, esta mesa com as matzót e com as ervas amargas, esta mesa de Pessach com sua toalha imaculada, esta mesa não é uma mesa; é mágica embarcação com a qual navegamos pelas brumas do passado, em busca das memórias de nosso povo. A esta mesa sentemo-nos, pois. Somos muitos, nesta noite. Somos os que estão e os que já se foram; somos os pais e os filhos, e somos também os nossos antepassados. Somos um povo inteiro, em torno a esta mesa. Aqui estamos, para celebrar, aqui estamos para dar testemunho. Dar testemunho é a missão maior do judaísmo. Dar testemunho é distinguir entre a luz e as trevas, entre o justo e o injusto. É relembrar os tempos que passaram para que deles se extraia o presente a sua lição. Olhemos, pois, a matzá que esta sobre a mesa. Este é o pão da pobreza que comeram os nossos antepassados na terra do Egito. Quem tiver fome – e muitos são os que têm fome, neste mundo em que vivemos – que venha e coma. Quem estiver necessitado – e muitos são os que amargam necessidades, neste mundo em que vivemos – que venha e celebre conosco o Pessach. É o legado ético de nosso povo, a mensagem contida neste simples alimento, neste pão ázimo que o sustentou no deserto, e que o vem sustentando ao longo das gerações. É preciso ser justo e solidário, é preciso amparar o fraco e ajudar o desvalido. O deserto que hoje temos de atravessar não é uma extensão de areia estéril, calcinada pelo sol implacável. É o deserto da desconfiança, da hostilidade, da alienação de seres humanos. Para esta travessia temos de nos munir das reservas morais que o judaísmo acumulou, das poucas e simples verdades que constituem a sabedoria do povo. Ama teu próximo como a ti mesmo. Reparte com ele teu pão. Convida-o para tua mesa. Ajuda-o a atravessar o deserto de sua existência. Tu me perguntas, meu filho, porque é diferente esta noite de todas as noites. Porque todas as noites comemos chamets e matzá, e esta noite somente matzá. Porque todas as noites comemos verduras diversas, e esta noite somente maror. Porque molhamos os alimentos duas vezes. Porque comemos reclinados. Eu te agradeço, meu filho. Agradeço-te por perguntares. Porque, se me perguntas, não posso esquecer; se indagas, não posso ficar calado. Por tua voz inocente, meu filho, fala a nossa consciência. Tua voz me conduz a verdade. Por que esta noite e diferente de todas as noites, meu filho? Porque nesta noite lembramos. Lembramos os que foram escravos no Egito, aqueles sobre cujo dorso estalava o látego do Faraó. Lembramos a fome, a cansaço, a suor, a sangue, as lagrimas. Lembramos a desamparo dos oprimidos diante da arrogância dos poderosos. Lembramos com alívio: é o passado. Lembramos com tristeza: é o presente. Ainda existem Faraós. Ainda existem escravos. Os Faraós modernos já não constroem pirâmides, mas sim estruturas de poder e impérios financeiros. Os Faraós modernos já não usam apenas a látego; submetem corações e mentes mediante técnicas sofisticadas. Seus escravos se contam aos milhões, neste mundo em que vivemos. São os negros privados de seus direitos, na África do Sul; os poetas que, em Cuba, não podem publicar seus versos; os imigrantes a quem, na Europa, está reservado o trabalho pesado e a hostilidade dos grupos fascistas; as refuseniks soviéticos que clamam por sua identidade; as mulheres e os jovens fanatizados pelo regime do Aiatolá, os prisioneiros políticos do Chile, as famélicos do Sahel e do nordeste brasileiro, as populações indígenas lentamente exterminadas em tantos lugares; os operários explorados e as camponeses sem terra. Para estes, ainda não chegou o dia da travessia. Estes ainda não encontraram a sua Terra Prometida. Para eles, a vida ainda e amarga como o maror. É a eles também que lembramos nesta noite, meu filho. Com eles repartimos, em imaginação, o nosso pedaço de matzá. Não sejas como o ingênuo, que ignora os dramas de seu mundo, Não sejas como o perverso, que os conhece, mas nada faz para mudar a situação. Pergunta, meu filho, pergunta tudo o que queres saber – a dúvida é o caminho para o conhecimento. Mas quando te tornares sábio, procura usar a tua sabedoria em benefício dos outros. Reparte-a, como hoje repartimos nossa matzá, Segue o conselho de nossos sábios, e lembra a saída do Egito, não só na noite de Pessach, mas todos os dias de tua vida. Falemos deste povo, então. Falemos dos judeus: pequeno grupo humano que viria a desempenhar um grande papel na história da humanidade. Um povo inquieto. Um povo que não buscava o repouso, nem para si, nem para os outros povos. Há cerca de 4000 anos a trajetória deste povo teve início quando Abraão deixou o seu lugar de origem, na região entre o Tigre e o Eufrates, para ir a Canaan. Pois disse-lhe o Senhor: “Sai de tua terra, e da terra de tua gente, e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei; Eu farei de ti uma grande nação, e te abençoarei, e farei grande teu nome; e serás uma benção; E eu abençoarei quem te abençoar, e amaldiçoarei quem te amaldiçoar; e em ti serão todos os povos da terra abençoados.” (Genesis 12:1-3) Mas não cessou com a chegada a Canaan e peregrinação judaica. Povo nômade, os hebreus deslocavam-se constantemente. E por isso não construíram grandes cidades, nem monumentos comparáveis às pirâmides. O que os hebreus levavam consigo, em suas migrações, era a sua tradição, era a palavra do Senhor, da qual eram guardiães; a palavra que deu origem ao livro sagrado, a Bíblia, seu grande legado para a humanidade. De Abraão nasceu Isaac, de Isaac Jacob, e de Jacob, José e seus irmãos. José, o vidente; José, que se tomou vizir do Faraó. Com José foram ter seus ingratos irmãos, quando

Vida de Moacyr Scliar será retratada em exposição no Santander Cultural de Porto Alegre

Por Fernanda Pandolfi Publicado em 19/12/13 no blog Rede Social da ZH Moacyr Scliar será tema de uma exposição no Santander Cultural, com inauguração prevista para o dia 2 de setembro. Batizada de Moacyr Scliar — O Centauro do Bom Fim, a mostra contará a história do escritor por meio de objetos pessoais, como manuscritos e obras originais. Carlos Gerbase é o curador da exposição, que terá uma sala de projeções para apresentar os personagens criados por Scliar em uma linguagem cinematográfica. Mais: um espaço será reservado para os equipamentos médicos do gaúcho, e uma sala de leitura receberá quem quiser apreciar a obra do autor com calma. Falando nisso, já viu que foi lançado um site do escritor?

A crônica hoje

A minha experiência com crônica data de 1974 quando comecei a escrever semanalmente para o jornal Zero Hora de Porto Alegre. No meu caso foi uma experiência no mínimo curiosa; ate então eu só escrevera textos ficcionais, para serem publicados em livros ou em suplementos literários. Mas fazer crônica e diferente, como e diferente a pagina do livro da pagina do jornal. Sim, em ambos os casos trata-se de texto impressa, destinado a um público, mas as diferenças são grandes, e históricas. Para começar, o livro tal como o conhecemos, surgiu antes do jornal; e do século quinze, enquanto o jornal só aparece no começo do século dezessete. Ao contrario do livro, que em geral tinha um tema único, tratava de vários assuntos num estilo que nem sempre era refinado, literário. Estabeleceu-se uma divisão: os escritores eram uma antiga aristocracia; os jornalistas eram os arrivistas. Os escritores escreviam para a eternidade; os jornalistas estavam presos aos assuntos do momento, nem sempre agradáveis. Escritores falavam mal do jornal: “Da primeira a ultima linha, nada mais e que um circo de horrores”, disse Baudelaire. Edmond e Jules Goncourt acrescentaram: “Efêmera folha de papel, o jornal e o inimigo do livro como a cortesã e inimiga da mulher decente.” Os escritores podiam fazer pesquisas formais, mesmo que estas resultassem em textos obscuros; os jornalistas tinham, e têm, a obrigação da clareza. Os escritores podiam e podem se estender por muitas paginas. Os jornalistas precisam limitar-se a um espaço previamente fixados. Se lhe são solicitadas quarenta linhas então o texto devera ter quarenta linhas. Se for maior, o editor vai ter de cortar – e qual o critério para isso? Se forem menos de quarenta linhas, sobrara um espaço – e como preenchê-Io? Além disto, os jornalistas têm prazo para entregar a matéria, coisa que raramente ocorre com os escritores. De qualquer modo, porém, muitos escritores aderiram à nova forma de comunicação com o público – por exemplo, através do folhetim, equivalente à novela de tevê: uma obra de ficção publicada em capítulos (ou fascículos) que, no século dezenove, era muito popular, graças a autores como o inglês Charles Dickens, cujos textos eram inclusive enviados para os Estados Unidos: multidões aguardavam no porto o navio que trazia os fascículos. No Brasil, José de Alencar também ficou conhecido desta maneira. Em nosso país, aliás, surgiu um gênero que se tornou o elo de ligação entre literatura e o espaço jornalístico: a crônica, praticada por grandes nomes como Machado de Assis e Lima Barreto. No começo era basicamente um gênero intimista; lírica, poética, meditação sobre o cotidiano das pessoas – a versão literária da conversa de bar que, nas mãos de um Rubem Braga, de um Fernando Sabino, de um Paulo Mendes Campos, de um Luis Fernando Verissimo, deu grandes textos. Era um respiradouro, uma brecha na massa não raro sufocante de notícias. Se considerarmos a crônica clássica, aquela que vai, digamos, de Machado de Assis a Rubem Braga, constataremos que houve uma mudança ao longo do tempo. A crônica era um gênero intimista, uma lírica, poética, meditação sobre o cotidiano das pessoas. Mas a mídia mudou: tornou-se mais objetiva, mais “dura”, privilegiando a notícia, a análise, e o comentário sob forma de coluna. Perdeu espaço, como outros gêneros, que praticamente sumiram dos jornais: o folhetim, o conto, a poesia. E é dirigida para um público obviamente restrito. Apesar disso, continuo achando que a crônica precisa de espaço nos grandes veículos. Trata-se de um respiradouro, de uma brecha na massa não raro sufocante de notícias. E é um gênero literário eminentemente brasileiro, que nas mãos de grandes cronistas, deu verdadeiras obras-primas. A crônica, com seu característico de mensagem pessoal, humaniza o veículo, alegra e comove o leitor. ILUSTRAÇÃO: Hugo Enio Braz

Acervo digital da obra de Moacyr Scliar será disponibilizado ao público

Entre as mais de 8,6 mil páginas de manuscritos e anotações do escritor que estão sob os cuidados da PUCRS, estão os originais de “A Guerra do Bom Fim”, de 1972 Por Alexandre Lucchese Publicado em 01/12/2013 no Segundo Caderno da ZH — Moacyr escrevia muito, e escrevia rápido — conta Judith Scliar, viúva de um dos escritores mais prolíficos do Rio Grande do Sul. Originais e recordações que remontam aos escritos de Moacyr Scliar (1937 — 2011) ao longo da vida estarão em breve acessíveis a todos pela internet. Mais de 8,6 mil páginas de manuscritos e datiloscritos do escritor que estão sob os cuidados da PUCRS, boa parte deles doados por Judith, estão em processo de digitalização pelo Espaço de Documentação e Memória Cultural (Delfos), pertencente à instituição. Entre manuscritos e textos enviados para editoras, o acervo congrega originais do primeiro ao último romance de Scliar. — Temos aqui a primeira composição de A Guerra do Bom Fim, de 1972, e anotações difíceis de estimar com precisão, mas que provavelmente são de um período entre 1962 a 1968 — explica a professora Marie-Hélène Passos, responsável pela organização do acervo. A maior parte desse material digitalizado estará disponível para livre acesso a partir do início de 2014. A única restrição feita por parte da família são os textos inéditos que aparecem na coleção. — Acredito que, se o Moacyr não quis publicar este material, foi por algum bom motivo. Não pretendemos deixá-lo público no acervo nem editá-lo em livros — diz Judith. Além disso, enfatiza, os volumes não publicados têm ideias e trechos melhor trabalhados em outros romances e contos lançados no mercado editorial. Especialista em crítica genética, campo de pesquisa que trata das marcas deixadas por autores em processo criativo, Marie-Hélène esclarece que a disponibilidade do acervo possibilita maior compreensão de como Scliar praticava a escrita: — Quando você vê esse material, se dá conta de que ele passava o tempo todo escrevendo, era tão natural como respirar. Bilhetes de aeroporto, recibos de postos de gasolina, folhas pautadas, blocos de nota: qualquer papel servia como suporte para grafar o que vinha da imaginação do autor. A variedade de materiais do acervo impressiona quem o manuseia, demonstrando que escrever era mesmo uma constante. O processo de arquivamento virtual e publicação iniciado com os textos de Scliar vai ser também aplicado a outros acervos do Delfos. Regina Kohlrausch, diretora da Letras da PUCRS, esclarece que o autor foi escolhido por conta de sua importância e pela boa relação da instituição com a família: — Uma parte deste material já tinha sido doado pelo próprio Scliar em 2005, depois Judith complementou o acervo. Os herdeiros são muitos acessíveis e colaborativos com o que estamos fazendo Judith conta que ainda pretende lançar um site com booktrailers do autor e textos analíticos de sua obra. A busca é pela preservação da memória do escritor: — Estamos preparando este espaço, que irá centralizar conteúdos e terá link para os trabalhos acessíveis pelo Delfos. Destaques do acervo Produção em larga escala A organização estima em torno de  8,6 mil páginas de acervo. Copiar e colar Páginas datilografadas são povoadas de secções e emendas com trechos, revelando método de trabalho do autor. Anotações constantes Bilhetes de viagem e recibos de posto de gasolina fazem parte das colagens que compõem os originais. Perfeccionismo Cada romance tem cerca de quatro ou cinco versões. Raridade O manuscrito mais antigo do acervo é A Guerra do Bom Fim, de 1972, mas estima-se que há papéis anteriores a 1968. Era digital Eu vos Abraço, Milhões, escrito no computador e lançado em 2010, tem a prova de editora conservada no acervo.

Território da Emoção (2013)

Esta coletânea de crônicas dá sequência ao projeto da Companhia das Letras de publicar uma amostra significativa das crônicas escritas por Moacyr Scliar ao longo de mais de trinta anos de colaboração com o jornal Zero Hora, de Porto Alegre. A literatura e a medicina são dois eixos constantes na imaginação de Scliar: incansavelmente, o escritor – ele próprio médico sanitarista – voltou aos temas que o apaixonavam. Em sua concepção, ambos estão vinculados pela palavra. Assim, nestas crônicas desfilam médicos escritores (dos primórdios de Galeno e Vesálio até Thomas Mann, Tolstói e Molière); recordações dos anos de estudante na faculdade de medicina em Porto Alegre; histórias da prática médica; escritores doentes e o modo como lidaram com as próprias limitações físicas; escritores que escreveram sobre medicina… E ainda, numa outra vertente, questões políticas e éticas, como a colaboração de alguns médicos com a ditadura, tanto no Brasil como em outros regimes autoritários. O humor de Scliar funciona mais no registro da malícia que no da ironia; é ele o responsável pela leveza encantadora dessas crônicas, que não se furtam à gravidade de muitas das questões que abordam, a começar pela maior delas, âmago tanto da literatura como da medicina. Para o escritor, a medicina opera “pequenas ressurreições” diante do “aguilhão da morte”. “A última palavra é a da Morte. Mas enquanto ela não chega a medicina tem muito a dizer.” E a literatura também. Ouça o book trailer: