Centauro na Academia

Nota publicada pelo jornalista Tulio Milman, em Zero Hora, destaca um simpósio na USP que vai homenagear Moacyr Scliar. Entre os organizadores, está a professora Berta Waldman, doutora em Literatura Comparada e Teoria Literária. “Scliar, com seu estilo coloquial, a visão crítica da realidade que o caracteriza e a construção de seus heróis fracassados, insere-se na literatura brasileira que se vem desenvolvendo no Brasil nas últimas décadas, destacando-se como o representante mais fecundo desse encontro particular de culturas nas letras brasileiras contemporâneas”, escreveu ela. Já a professora Lysley Nascimento destaca outro ponto importante da obra de Scliar: a releitura sagaz dos textos bíblicos. “Ele tinha como marca indelével o exercício da reescrita e da ironia. O arquivo da tradição judaica acessado pelo escritor é especialmente instigante. E ele se inscreve numa longa tradição de exímios contistas que revisitam, pela ficção, as Sagradas Escrituras”.

Moacyr Scliar ganha luxuosa edição de livro na Lituânia

Mais de cinco anos depois da sua morte, o gaúcho continua conquistando leitores mundo afora Max e os Felinos, de Moacyr Scliar, ganhou uma luxuosa edição na Lituânia. Mais de cinco anos depois da sua morte, o gaúcho Scliar continua conquistando leitores mundo afora.   Fonte: Tulio Milman – ZH Colunistas

Moacyr Scliar, nós te abraçamos, milhões

Belíssimo texto escrito pela amiga Leniza Kautz Menda, poucos dias após o falecimento do Moacyr Scliar. O texto faz alusão ao último livro de Moacyr: EU VOS ABRAÇO, MILHÕES. MOACYR SCLIAR, NÓS TE ABRAÇAMOS, MILHÕES Moacyr, nós te abraçamos por teres sido o grande escritor que foste, um contador de histórias muito criativo, inspirado desde a mais tenra infância pelo amor aos livros e pelo incentivo de tua mãe, dona Sara. Moacyr, nós te abraçamos por teres sido um escritor tão prolífico, por teres abordado os mais diferentes gêneros literários, desde romances, contos, ensaios, ficção infanto-juvenil e textos para a imprensa. Moacyr, nós te abraçamos por teres tido uma imaginação fértil, mesclando, em tuas obras, elementos do cotidiano com toques surrealistas e de realismo mágico. Moacyr, nós te abraçamos por teres descortinado os principais elementos e valores da cultura judaica, a ética que permeia o judaísmo bem como a vinda dos imigrantes europeus e a difícil, mas calorosa, recepção que tiveram nesse glorioso Brasil. Moacyr, nós te abraçamos por teres criado personagens inesquecíveis e que ficarão para sempre no imaginário popular. É impossível esquecer Mayer Guinsburg, o D.Quixote, que, mesmo lutando solitariamente e enfrentando inúmeras oposições, queria estabelecer uma colônia socialista em um bairro de Porto Alegre. Como esquecer Guedali, um misto de ser humano e centauro, um personagem que reflete a ambigüidade do ser humano, os conflitos existenciais e a dupla identidade judaica? Como esquecer a feiosa esposa do rei Salomão que, com sua cultura e sabedoria, escreveu a Bíblia? Moacyr, nós te abraçamos por teres sido o imortal da Academia Brasileira de Letras, o médico sanitarista disposto, sempre, a contribuir, com teus artigos, para a melhoria do estado físico e emocional das pessoas. Mas, Moacyr, nós te abraçamos, sobretudo, por teres sido um ser humano muito “mensch”, sempre solícito e cordial, sempre disponível para responder aos e-mails, elogiar a quem elogiava as tuas obras, ressaltar o carinho demonstrado a ti com agradecimentos no jornal e manifestações de apreço aos leitores, familiares e amigos. Enfim, Moacyr, nós te abraçamos, milhões!  Leniza Kautz Menda

Scliar

A parábola do lenhador poderia ter sido inventada por Moacyr Scliar Por Luis Fernando Verissimo Convidado pela Casa do Saber, do Rio, para participar de uma homenagem ao Moacyr Scliar, nos cinco anos da sua morte, e não querendo apenas falar do prazer e do privilégio de ter sido seu amigo, fui atrás de um texto do Saul Bellow que me lembrava de ter lido, sobre o judeu como inventor de parábolas didáticas, o que o Scliar fez sua vida inteira, disfarçando-as com a realidade e com a fantasia. Segundo Bellow, nas histórias da tradição judaica, o mundo e até o universo têm um sentido humano. A imaginação judaica já foi inclusive acusada de sobre-humanizar tudo, de supervalorizar o humano e atribuir a tudo significados demais. Para alguns, o próprio cristianismo seria uma criação de contadores de histórias judeus, festejando a vitória de cristãos oprimidos sobre os opressores, na sua origem. Bellow conta que seu pai tinha sempre uma história pronta para qualquer questão, moral ou corriqueira. Todas as respostas começavam como uma história. “Havia um certo homem que morava….”, “Uma viúva e sua filha…”, “Um cavaleiro vinha por uma estrada na floresta…”. A história que Bellow mais gostava era a do lenhador que saía de casa para juntar lenha na floresta e, na hora de voltar para casa, tinha juntado tanta lenha, que não conseguia levantar sua carga. Depois de praguejar contra a sua própria velhice e sua falta de força, o lenhador pedira a Deus que mandasse a morte buscá-lo, pois era um homem imprestável. E Deus apiedou-se do lenhador e mandou o Anjo da Morte para buscá-lo, e o lenhador pediu para o Anjo ajudá-lo a levar a lenha para casa e depois dispensou-o, dizendo que mudara de ideia e não queria mais morrer. O que provava, para o pai de Bellow, que ninguém está realmente pronto para morrer. A parábola do lenhador, que Bellow lembra como exemplo de uma história tipicamente judaica, poderia ter sido inventada pelo Scliar. Nela há a tragédia da condição humana, da velhice, da revolta contra um destino irremediável, e o humor do desenlace, em que o Anjo da Morte é desviado da sua função e posto a trabalhar. Em toda a obra do Scliar, há essa mistura do trágico e do cômico, ou do trágico redimido pelo cômico. Em alguns casos, o humor judeu existe apenas para estabelecer uma ideia de equilíbrio e sanidade num mundo maluco. Mas quase sempre o humor judaico é misterioso e impossível de ser analisado, até por gente como Sigmund Freud, segundo Bellow. Alguém já argumentou que o riso, um senso cômico da vida, pode ser visto como prova da existência de Deus. A existência seria engraçada demais para não ter uma causa mais alta. O ateu Scliar responderia que a ideia de um deus piadista é que é muito engraçada. Bellow diz que a experiência do gueto, da vida confinada, longe de produzir um sentimento claustrofóbico, abre a imaginação para o alto e para o mundo fora dos limites. Scliar é o produto de um gueto, o Bairro Bom Fim de Porto Alegre, em que nunca, que eu saiba, houve um pogrom. Se sua experiência fosse a de um gueto como o de Varsóvia, suas histórias seriam outras, ainda dentro da tradição judaica, e sua imaginação mais trágica e menos livre. Para nossa felicidade como leitores, o gueto que formou sua imaginação foi o de Porto Alegre. O mundo e o universo vistos de lá eram muito maiores e mais humanos, o Bom Fim literalmente não tinha fim. (via Zero Hora)